Uma "nanica" que virou gigante - Dia 30 de setembro de 2015, Ana Luísa de Assis Ramalho abriu uma empresa - a Gastronomia Nordeste, com capital inicial declarado de R$ 80 mil.

Exatamente um mês depois, a empresa formalizaria seu primeiro contrato:

Em um processo sem licitação - e sem precisar comprovar competência técnica ou financeira – a então pequena empresa se tornaria um gigante, ao ser escolhida para fornecer refeições para o Hospital de Trauma da Capital e também para seu anexo, o HTOP.

Naquele ano, a recém criada Gastronomia Nordeste faturaria R$ 492.937,54 por dois meses de serviços.

O avanço financeiro da empresa seria mais vertiginoso nos anos seguintes (valores em milhões):

Em 2016, faturou R$ 8.656.871,31.

Em 2017,  R$ 9.487.423,40.

Em 2018, R$ 10.326.972,48.

A antecessora da Gastronomia Nordeste no fornecimento de refeições ao Trauma da Capital - a Papatudo - tinha faturamento muito aquém da nova contratada:

2012 - R$ 1.354.044,91

2013 - R$ 2.145.945,00

2014 - R$ 4.911.072,18

2015 - R$ 4.045.492,66



Tudo acontece numa cozinha muito especial - Técnicos do Tribunal de Contas descortinaram lances surpreendentes na jornada da Gastronomia Nordeste, até esta chegar ao gigantismo financeiro.

O primeiro deles foi a entrada em cena de um sócio milionário tão logo a empresa celebrou o contrato com a Cruz Vermelha. O novo dono declarou capital de R$ 800 mil. Detalhe: Ana Luísa continuou com seus míseros R$ 80 mil.

"Essa situação é intrigante, pois não se verifica em transações comerciais normais a empresa, já detentora de faturamento garantido com margem de lucro de 80%, aceitar sócio e permanecer com o mesmo capital inicial", observam técnicos do TCE em relatório que concluiu pela necessidade de cancelamento imediato do contrato entre Cruz Vermelha e Gastronomia Nordeste.

O enredo tem mais lances estranhos:

Ana Luísa decide sair da sociedade para se tornar empregada. Vende sua parte pelos R$ 80 mil declarados inicialmente.

Os técnicos do TCE voltam a se assombrar e relatam:

"Sai e declara que vendeu sua participação pelos mesmos R$ 80.000,00 (oitenta mil reais), mesmo tendo faturado ate a data da saída em torno de R$ 18.637.232,25 (dezoito milhões, seiscentos e trinta e sete mil, duzentos e trinta e dois reais e vinte e cinco centavos), com lucro estimado de 80%, ou seja, R$ 14.909.785,80 (quatorze milhões, novecentos e nove mil, setecentos e oitenta e cinco reais e oitenta centavos)".

A equipe do TCE ainda detectou intensa entrada e saída de sócios ao longo dos quatro anos em que forneceu alimentos ao Trauma.

Em quatro anos, a Gastronomia Nordeste saiu dos R$ 80 mil iniciais para atingir, ao final de 2018, faturamento de R$ 28.964.204,73.

Como conseguiu a façanha? Lucrando muito!

As contas feitas pelos técnicos do TCE apontaram que a empresa tinha um custo mensal médio de R$ 348.265,01 (R$ 160.186,80 com insumos e R$ 188.078,21 com mão de obra). O faturamento médio mensal, porém, ultrapassava R$ 800 mil. Média de lucro mensal na casa dos R$ 500 mil.

"Pelos dados anteriores, e possível concluir que a lucratividade da empresa Gastronomia Nordeste tem crescido em desfavor das verbas publicas – aplicadas em um serviço que poderia ser executado diretamente pela Cruz Vermelha Brasileira, com a contratação direta do pessoal e aquisição dos insumos. Urge ainda destacar que a Cruz Vermelha detém a possibilidade de não contribuição de verbas previdenciárias em contratações diretas de pessoal por possuir o CEBAS  – Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social na Área de Saúde", grifam os técnicos do TCE", conclui o sucinto relatório do Tribunal de Contas.